Na calada da noite, enquanto
todos os corações da cidade dormem, surge uma névoa azulada e sonora. Pequenas e curtas notas ressoam partindo de uma pequenina -porém aconchegante- taverna, que esconde-se exprimida por dois prédios. Azul, Amarelo, Caramelo,
Roxo... as notas surgem..
A luz refletida na polidíssima Semi-acústica,
iluminando de leve todo o salão. Ainda não hão ouvintes, mas os autores da arte do
dia (ou da noite) se aprontam. Chegado o contrabaixo, o senhor regente das
melodias, o show se dá início. Das grossas cordas do contrabaixo se soltam notas
gordas e solitárias meladas em negro, como se pedindo o seu acompanhante, uma
chamada ao seu companheiro, saltam regendo, definindo o que se trata ali,
arpejam-se uns 5 ou 4 acordes definindo os seus “modos” ,que moldados como lhes
descreverei adiante serão repintados com novas sensações, e enfim encontra sua companheira fiel: Uma complexa
harmonia colorida, proveniente de um Piano de calda, mantendo o ar clássico na
taverna; agora o Baixo caminha, anda de mãos dadas com a harmonia do Piano, e
sua busca incansável para servir apropriadamente cada acorde que lhe é solidariamente doado. Então, um desconhecido aparece e por trás da harmonia - já bem servida
pelo Baixo - incrementa, inova, refaz, dá o emendo, com as notas um pouco mais
agudas, conversa diretamente com o Piano, e com bons argumentos, eleva a
conversa a uma grande reflexão, é a Semi-acústica, a adorada do jazz clássico e
do bebop, ela impõe sua magnitude, como se conectasse todos os outros
instrumentos, fazendo ressoar suas preparações racionalmente colocadas por
sobre harmonia e Baixo.
Surge então aquele que é o
característico do jazz, grunhindo notas infames, saindo da conjuntura da
música, re-colorindo o necessariamente “desprogramado” conjunto, de vez em vez
aventurando-se no lado out, porém retornando gloriosamente, lembrando o Sax já
empunhado pelo mestre Coltrane. Já passado o tema e o improviso do Sopro, a
música dá licença para apresentar os músicos e suas imaginações devidamente e
como um cortês, o jazz então começa a
fase dos improvisos.Bom aqui está uma parte crítica do texto, só posso narrar
um dos instrumentos, e por votação democrática a eleita foi........ A graciosa,
genial e minha companheira, a Semi-acústica alemã. A partir do ritmo da
bateria jazzística (esquecida por mim), com seu tic-tchi-tizz característico, da
inspiradora e agora mais discreta harmonia do piano,e o incansável e andante
Baixo, começam a surgir no guitarrista jazz as ideias que nortearão todo o
improviso e as elas vão surgindo, um pouco de out-side para deixar sombrio,
um dórico para adoçar, um lídio com a nona aumentada assinando o ponto, e
talvez um lócrio para terminar, tudo isso em milésimos de segundo, e então como
num circuito a ideia corre para os braços, de lá para os dedos, que por sua vez
traduzem e decodificam para as cordas, as mirabolantes ideias que agora
amadurecidas se tornaram melodias geniais, que retomam nostalgicamente aos
grandes mestres da guitarra jazz: o Wes Montgomery, Joe Pass, Pat Martino,
Charlie Byrd....
E ,às vezes, intercalados por alguns
acordes, o improviso melódico e harmônico que acontecera aqui, se esvai como a fumaça
dançante proveniente do charuto que um cidadão ao lado insiste em tragar, deixando cores, azuis, amarelas, brancas e vermelhas, gostos doces e azedos,
amargos e salgados, deixando sensações que olhos não vêem mas corações
sentem. Se esvai junto a fumaça, de mãos dadas a ela, até o céu da noite da
cidade adormecida.
Ao Jazz.........

