sábado, 1 de dezembro de 2012

E como a fumaça se esvai......


       Na calada da noite, enquanto todos os corações da cidade dormem, surge uma névoa azulada e sonora. Pequenas e curtas notas ressoam partindo de uma pequenina -porém aconchegante- taverna, que esconde-se exprimida por dois prédios. Azul, Amarelo, Caramelo, Roxo... as notas surgem..
       A luz refletida na polidíssima Semi-acústica, iluminando de leve todo o salão. Ainda não hão ouvintes, mas os autores da arte do dia (ou da noite) se aprontam. Chegado o contrabaixo, o senhor regente das melodias, o show se dá início. Das grossas cordas do contrabaixo se soltam notas gordas e solitárias meladas em negro, como se pedindo o seu acompanhante, uma chamada ao seu companheiro, saltam regendo, definindo o que se trata ali, arpejam-se uns 5 ou 4 acordes definindo os seus “modos” ,que moldados como lhes descreverei adiante serão repintados com novas sensações, e enfim  encontra sua companheira fiel: Uma complexa harmonia colorida, proveniente de um Piano de calda, mantendo o ar clássico na taverna; agora o Baixo caminha, anda de mãos dadas com a harmonia do Piano, e sua busca incansável para servir apropriadamente cada acorde que lhe é solidariamente doado. Então, um desconhecido aparece e por trás da harmonia - já bem servida pelo Baixo - incrementa, inova, refaz, dá o emendo, com as notas um pouco mais agudas, conversa diretamente com o Piano, e com bons argumentos, eleva a conversa a uma grande reflexão, é a Semi-acústica, a adorada do jazz clássico e do bebop, ela impõe sua magnitude, como se conectasse todos os outros instrumentos, fazendo ressoar suas preparações racionalmente colocadas por sobre harmonia e Baixo.
        Surge então aquele que é o característico do jazz, grunhindo notas infames, saindo da conjuntura da música, re-colorindo o necessariamente “desprogramado” conjunto, de vez em vez aventurando-se no lado out, porém retornando gloriosamente, lembrando o Sax já empunhado pelo mestre Coltrane. Já passado o tema e o improviso do Sopro, a música dá licença para apresentar os músicos e suas imaginações devidamente e como um cortês, o jazz então começa  a fase dos improvisos.Bom aqui está uma parte crítica do texto, só posso narrar um dos instrumentos, e por votação democrática a eleita foi........ A graciosa, genial e minha companheira, a Semi-acústica alemã. A partir do ritmo da bateria jazzística (esquecida por mim), com seu tic-tchi-tizz característico, da inspiradora e agora mais discreta harmonia do piano,e o incansável e andante Baixo, começam a surgir no guitarrista jazz as ideias que nortearão todo o improviso e as elas vão surgindo, um pouco de out-side para deixar sombrio, um dórico para adoçar, um lídio com a nona aumentada assinando o ponto, e talvez um lócrio para terminar, tudo isso em milésimos de segundo, e então como num circuito a ideia corre para os braços, de lá para os dedos, que por sua vez traduzem e decodificam para as cordas, as mirabolantes ideias que agora amadurecidas se tornaram melodias geniais, que retomam nostalgicamente aos grandes mestres da guitarra jazz: o Wes Montgomery, Joe Pass, Pat Martino, Charlie Byrd....
       E ,às vezes, intercalados por alguns acordes, o improviso melódico e harmônico que acontecera aqui, se esvai como a fumaça dançante proveniente do charuto que um cidadão ao lado insiste em tragar,  deixando cores, azuis, amarelas, brancas e vermelhas, gostos doces e azedos, amargos e salgados, deixando sensações que olhos não vêem mas corações sentem. Se esvai junto a fumaça, de mãos dadas a ela, até o céu da noite da cidade adormecida.

                                                                                                   Ao Jazz.........

Olhos Vazios



        No canto do ônibus, costumeiramente vazio aos domingos, atrasado por conta de um show que com o fluxo de carros travara o trânsito de Ilhéus, estava sentado comportadamente um garoto franzino, com as linhas da face grosseiras, possivelmente de uma origem genética do sertão nordestino, terra de Lampião e Antônio Conselheiro. Em certo momento da pequena viagem de aproximadamente uns 7 a 9 minutos, o muleque canta , mesmo que desafinado e com voz fraca, os hinos de sua igreja (breves paródias gospel em Sol maior ou Dó, tons alegres livres de tensões e sutilezas musicais), a letra denunciava o “mal” do mundo “mundano” e aconselhava imperativamente: “ se entregue ao reino de deus” ou algo assim; A letra mexia com os pensamentos daquele menino assim como com o dos seus pais e irmãos, as mensagens passavam por entre seus ouvidos sem alguma digestão; a “entrega” ao caminho rumado da dependência e demência mental, a destruição dos seus desejos e vontades de cada um, para aceitar as convicções religiosas, se refletiam em seus pequenos olhos vagos, que olhavam o horizonte inexistente da sua própria inexistência, o autismo generalizado do cristianismo atinge mais uma vítima, a boca se mexia cuspindo a letra indigerida, os olhos opacos se alinhavam para o nada e a mente o seguia, olhos e espírito se estagnavam nas certezas que deixavam sua realidade mais branda, mais comum, mais aceitável, lhe retirava as forças para lutar, “apenas aceite, é um desígnio de deus” dizia, ensinava, martelava, escravizava...
        Já na saída, desce sem olhar para os lados ainda puxado pela música, que o levará até sua casa , sua cama e até o mais profundo do seu espírito, e a lástima  de uma sobrevivência de rumos traçados e medos formados, medos que assim como as convicções destruirão toda e qualquer esperança de elevação, de real amor à vida, e fecharão seus já vazios olhos .....