No canto do ônibus, costumeiramente
vazio aos domingos, atrasado por conta de um show que com o fluxo de carros
travara o trânsito de Ilhéus, estava sentado comportadamente um garoto
franzino, com as linhas da face grosseiras, possivelmente de uma origem
genética do sertão nordestino, terra de Lampião e Antônio Conselheiro. Em certo
momento da pequena viagem de aproximadamente uns 7 a 9 minutos, o muleque canta
, mesmo que desafinado e com voz fraca, os hinos de sua igreja (breves paródias
gospel em Sol maior ou Dó, tons alegres livres de tensões e sutilezas
musicais), a letra denunciava o “mal” do mundo “mundano” e aconselhava
imperativamente: “ se entregue ao reino de deus” ou algo assim; A letra mexia
com os pensamentos daquele menino assim como com o dos seus pais e irmãos, as
mensagens passavam por entre seus ouvidos sem alguma digestão; a “entrega” ao
caminho rumado da dependência e demência mental, a destruição dos seus desejos
e vontades de cada um, para aceitar as convicções religiosas, se refletiam em
seus pequenos olhos vagos, que olhavam o horizonte inexistente da sua própria
inexistência, o autismo generalizado do cristianismo atinge mais uma vítima, a
boca se mexia cuspindo a letra indigerida, os olhos opacos se alinhavam para o
nada e a mente o seguia, olhos e espírito se estagnavam nas certezas que
deixavam sua realidade mais branda, mais comum, mais aceitável, lhe retirava as
forças para lutar, “apenas aceite, é um desígnio de deus” dizia, ensinava,
martelava, escravizava...
Já na saída, desce sem olhar para os
lados ainda puxado pela música, que o levará até sua casa , sua cama e até o
mais profundo do seu espírito, e a lástima
de uma sobrevivência de rumos traçados e medos formados, medos que assim
como as convicções destruirão toda e qualquer esperança de elevação, de real
amor à vida, e fecharão seus já vazios olhos .....

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